A CONDECORAÇÃO DO PADRE CICERO

A Igreja Católica está se reconciliando com o Pe. Cicero. Juazeiro do Norte se tornará uma espécie de uma nova Machester e Liverpool, as capitais da revolução industrial inglesa do século XVIII, grande abertura do capitalismo industrial. Com seus dois milhões de visitantes anuaís e suas romarias  de sertanejos a cidade será  o berço  do Commonwealth católico.  O Papa Francisco prepara  a canonização do Padre Cícero e trabalha para  restaurar ali o brilho católico no mundo.

Em 1°de março de l889, depois de receber a hóstia numa missa em Joazeiro, pelas mãos do Pe. Cícero, a boca da beata  Maria de Araújo encheu-se de sangue. O acontecimento foi como um grito que correu sertão afora com a velocidade de um relâmpago. Os corações e mentes dos sertanejos se inflamaram. Era o milagre.

A onda, no entanto, não prosperou. O bispo de Juazeiro, Dom Joaquim A. Vieira, advindo de São Paulo e refletindo um catolicismo mais preparado, em nome da Igreja de todo o Ceará e do Vaticano afirmou que aquele não era um milagre, mas uma trapaça.

O Pe Cicero reagiu: foi a Roma,  encontrou-se com o Papa Leão XIII e  recebeu a absolvição mas de retorno ao Ceará os votos do Vaticano foram revistos; a igreja declarou  que a sentença era irrevogável e  tinha que agir com prudência.  Até o século XII  a canonização  se baseava simplesmente no reconhecimento das obras e virtudes do candidato que era declarado  beato e passava a ser venerado na região onde viveu.

O processo agora tinha que ser universal. Representado por autoridades eclesiais de todo o mundo e apoiado nas chamadas virtudes heróicas (fé, esperança e caridade, prudência, justiça, fortaleza e outras) ele se concluiria com a condecoração do Pe. Cicero  pela voz do Papa ou de um seu representante.

Esse fato me lembra um episódio ocorrido em l997, num seminário sobre a Guerra de Canudos no auditório da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Ceará.

Tendo considerado  as atividade  do Padre Cícero no conflito, eu declarara, nas considerações finais que o Pe. Cicero era um grande conservador. Era de fato amigo dos grandes proprietários. No período da guerra de Canudos, ele apaziguava os sertanejos em Salgueiro para que não aderissem à Antonio  Conselheiro e uniu-se aos latifundiários para lutar contra o governo democrático de Franco Rabelo.

Mas abrindo-se o debate um dos presentes, figura bem popular, disse que não concordava com a minha afirmação. Ele refletia a contradição do Seminário com o ambiente dos mais simples.

Aos olhos de alguns aquela afirmação no anfiteatro Castelo Branco da Universidade do Ceará, em Fortaleza, a cidade do ditador, ainda que praticamente superada a ditadura, ainda era incomum. Respondi logo, ao meu interlocutor dizendo que o entendia, ou seja, que o Pe. Cícero não era um conservador qualquer, mas um grande conservador. O debatedor, talvez por não ter entendido bem a minha fala, concordou e terminamos o debate na mais santa paz.

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