AVISO AO NAVEGANTES: FAMILIA E CULTURA

Tive, com um irmão que já perdi, um relacionamento que poderia ter sido evitado não fossem as condições culturais sob as quais vivíamos.

 

Sentindo-se dono da bola, ou seja, repetindo o modo autoritário inspirado na maneira de pensar e comportar-se do seu pai, de quem ele era o primeiro filho, como acontece normalmente, ele, querendo impor-me certa disciplina, que era a que ele concebia como certa, dirigiu-se ao dirigente da Praça de Esportes de Campo Belo, o Tnte Antonio Moisés e pediu a minha suspensão da freqüência nos exercícios que se faziam ali. Era, tipicamente, uma punição que poderia ter sido evitada.

 

Ele foi atendido também pelas condições culturais do próprio Tnte. que, negro, baiano, militar e suboficial num estado local provinciano como Minas Gerais, era uma autoridade de rango inferior à que ele socialmente queria reagir de rango mais elevado. Fui então suspenso por um mês, o que me impediu de fazer a preparação para uma ou várias provas de natação que a própria Praça preparava na ocasião.  O Tnte não conversou, mas simplesmente aceitou a “ordem” que vinha de um comerciante muito conhecido, cuja família também se impunha na localidade.

 

Claro que não gostei da sua atitude e reclamei contra ela. Isso, no entanto, aparentemente de nada adiantou porque as condições culturais e institucionais da cidade não contemplavam esse direito. Ele se valera arbitrariamente, do “direito” de ser o primeiro filho e de poder, então, tomar a atitude que tomou.

 

No meu entendimento a sua maneira de agir se explicava mais pelas condições culturais e institucionais locais do que pelo seu caráter e mesmo sensibilidade pessoais. Isto ficou claro para mim nas atitudes que ele tomou posteriormente. Vejam a carta que ele me enviou uns dois ou tres anos depois:

A CARTA ESCRITA PELO CLOVIS EM 07 DE DEZEMBRO DE 1959.

 

 

 

Esta carta expõe o seu ânimo muito positivo  constrastante com a atitude que tomou contra mim. Ela é  bem educada, refletida e generosa com o gesto afetuoso de presentear-me com uma camisa e dispor-se até mesmo a aconselhar-me a consertá-la caso fosse necessário ou mesmo de sugerir que lha mandasse de volta  para que ele mesmo a consertasse.

 

Esta carta traduz a sua  atitude diante da minha resistência em aceitar a sua maneira autoritária de agir. Com esta carta ele aceita a minha critica.

 

Houve também outra atitude meritória de agir em relação a mim. No dia 31 de março de 1964, um dia antes de eu ser preso pelo fascismo  dos militares que fizeram naqueles dias o golpe de estado civil militar, ele,  de passagem por Belo Horizonte, chamou-me ao telefone para ir com ele, em seu carro, passar o meu aniversário – em1°de Abril – em Campo Belo, com a família.

 

Enternecido eu lhe agradeci o convite e lhe respondi que não podendo viajar imediatamente, naquele dia, eu iria ao dia seguinte a Campo Belo. Dias depois ele, ao que parece, foi até a prisão onde eu fora trancafiado  para me visitar e  manifestar a sua solidariedade. Isso me fez refletir. Ele era autoritário mas não era facista.

 

Havia entre o Clovis e eu muita diferença na maneira de pensar e agir. Ele participou, na sua juventude, do time de futebol do Comercial Esporte Clube, que representava, na cidade, o partido político contrario ao do meu pai, que era a União Democrática Nacional (UDN). Isso norteou e motivou em muito a sua relação social, cultural e política na cidade. Meu pai havia  rompido com aquele partido muitos anos antes por uma atitude do Dr. Oscar Botelho, que era o presidente da UDN local. O médico recusou-se a me atender, num horário noturno, de madrugada, quando eu tinha só 10 meses de idade. Meu pai reagiu com energia, dizendo-lhe que como o médico não me atendia, ele também não o atenderia nunca mais e rasgou na sua frente a carteira de pertencimento ao seu partido político, que era o partido de toda a sua família.

 

Houve também outro fato muito desagradável de que ele participou. No final da campanha eleitoral de que eu participava como candidato a prefeito da cidade, ele e sua mulher, num encontro ocorrido no centro da cidade, à frente de muita gente, tomaram uma atitude inaceitável, defendendo o candidato que concorria comigo como representante do partido oposto. Sua mulher chegou mesmo a agredir-me, naquela ocasião, fisicamente. Sua mulher me parecia bem diferente dele. Parecia-me agressiva e eivada de atitudes facistas.

 

Sempre houve muita diferença entre sua mulher e eu. Não me lembro da  atitude do meu irmão naquela ocasião  da agressão na praça central de Campo Belo. Ele parecia demonstrar, naqueles dias, até uma certa atitude de proximidade comigo.

 

Sua mulher, e eu, no entanto, pelas diferenças pessoais, ideológicas e políticas, não éramos amigos. Sempre houve, entre nós, uma grande distância. Esta relação distante com ela era baseada nas relações sociais de pessoas mais afirmadas que ela privilegiava. Era filha de um funcionário público e se identificava  em termos ideológicos, sociais e políticos com a classe média. A  sua orientação de fundo a identificava, no plano ideológico, social e poliotico com a classe média. As suas sempre foram atitudes individualistas.

 

A questão da classe social é sem dúvida alguma o centro desse conflito. Meu irmão era o primeiro filho de um pequeno proprietário rural e procurava se afirmar socialmente com os setores mais aquinhoados. O seu casamento, suas atitudes sociais, culturais e políticas eram freqüentemente identificadas com a classe média. Essa era a razão principal de nossas distâncias.  Em termos mais estruturais a razão que o levou a propor e realizar a minha suspensão da Praça de Esportes era a tentativa de realizar o papel do pai impondo-me uma sua concepção da disciplina.   Queria, a seu modo, ligar a minha disposição a atos como o  de realizar a sua vontade, como olhar,  eventualmente, a sua loja nos momentos da sua ausência. Eu não costumava me negar a realizar desejos seus como esse, mas não aceitava, evidentemente, de estar, para esse e ou outros objetivos, de estar à sua disposição. A minha recusa permanente  demonstrava a necessidade de ele mudar  a sua maneira de pensar e agir desse modo.

 

Hoje, à distância de tantos anos, refletindo sobre minha experiência de vida, decidi escrever e me comunicar sobre esta experiência. Isso é, afinal, produzir cultura e ampliar o horizonte da comunicação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *