As vacas e os sábios de Napoleão

 

 

 

Eugênio Tarlé (l875-1955) – historiador soviético, autor de uma biografia de Napoleão – conta que, ao iniciar uma nova campanha, o General escutava exaustivamente os sábios até se considerar informado. E, ao dar voz de marcha ao exército, exigia que as “vacas e os sábios” marchassem protegidos pelas tropas. As vacas importavam pela força de tração, pelo leite e pela carne; os sábios, pelo conhecimento científico que servia, entre outras coisas, também para localizar os botins de guerra – metais preciosos, obras de arte e outras raridades estrangeiras que o exército de Napoleão costumava acrescentar ao patrimônio francês. Tarlé elogiava, assim, o planejamento estratégico de Bonaparte.

 

Se exemplos históricos como esses – deixando de lado, obviamente, o imperialismo de Napoleão – inspirassem os nossos políticos, não teríamos no centro de BH a situação conflagrada de hoje. Precisamos, para resolver os grandes problemas do transporte urbano, de pensar nos termos de uma verdadeira campanha de dimensões napoleônicas.

 

A ciência política, nos anos de 1930, num desenvolvimento singularmente refinado de Antonio Gramsci, à sombra de sugestões essenciais de Maquiavel, Hegel, Marx e outros estudiosos, fazia apelo à exigência da ampliação do consenso político para derrubar as ditaduras e desenvolver a democracia. Gramsci não venceu de imediato, bloqueado como estava, de um lado pela ditadura de Mussolini e de outro pelo próprio partido sob estreita disciplina stalinista, mas vingou como proposta não demiúrgica da política lembrando que esta última não cai dos céus, mas é também uma arte cujo objetivo é realizar, com uma nova consistência, uma unidade política fortemente assentada na diversidade. Ela exige, além do mais, um competente monitoramento estratégico que equacione da forma mais pertinente as situações – os interesses e as forças – em que vivemos.

 

A complexa e difícil situação do transporte público nos países do Terceiro Mundo tem que ser focalizada com o arrojo, a complexidade e o refinamento desta abordagem mais global. É o que ficou evidenciado pelas situações conflitivas que tomaram conta do centro da capital mineira nos últimos dias. A PM teve com o que exercitar sua cabeça fria num quadro à beira de explosões de alto risco, neste país de massacres… Eram populares exasperados procurando, em meio ao caos, voltar para casa, no fim do dia, “perueiros” lutando por espaço e se sentindo injustiçados, comerciantes desorientados e policiais pressionados. Um oficial da PM diz não saber o que mais pesou para conter a polícia: se sua preparação para agir com cabeça fria nessas situações – uma exigência que cresce, naturalmente, em tempos de democracia.– ou a condenação do Cel. Ubiratam a 632 anos de prisão pelo massacre do Carandiru.

 

Num quadro tão atribulado, o poder público não pode limitar-se a defender o transporte tradicional contra os perueiros “clandestinos”. Ele seria vítima, nesse caso, de uma perigosa arapuca corporativa exposta a todas as provocações. É preciso promover um amplo e aprofundado debate que equacione os dados da situação em termos estratégicos de curto, médio e longo prazos.

 

O metrô subterrâneo defendido por muitos tem a ver? E um “hiperanel rodoviário” a cem quilômetros de distância do atual anel rodoviário, desafogando BH e desenhando uma circunferência viária de outros 700 quilômetros? É uma proposta estratosférica? Para o bom senso imediatista de hoje, não há dúvida! Ela exigiria uma competência descomunal das atuais lideranças políticas, não só da capital mas de dezenas de municípios da futura área metropolitana. Mas os políticos, hoje, em clima de redemocratização, não se propõem, volta e meia, à imagem e semelhança de JK? Por que não começar, então, a praticar o seu exemplo de arrojo empreendedor?

 

Não, exatamente, no sentido de “fuga para frente” com que Brasília foi construída para criar um clima de otimismo esfusiante e dar um “consenso embriagado” ao governo JK, sem enfrentar os problemas de base do País jogando-os para frente para explodirem no colo de João Goulart. Acho mesmo que esta manobra se constituiu na mola mestra central dos “50 anos em 5” de JK. Brasília se tornou um enorme canteiro de obras empregando milhares de filhos de um povo cercado pelo atraso e a miséria do latifúndio. Isso não deixou de atuar como poderosa simbologia para mobilizar artificiosamente o ânimo nacional abatido pela perspectiva de estancamento do desenvolvimentismo depois da morte de Getúlio. Ensejou ela, então, um poderoso élan nacional fechado em si mesmo e sem perspectivas de continuidade. É essa, enfim, uma das raízes da crise de março/abril de 1964.

 

Continuamos hoje com os grandes problemas do passado exigindo profundos consertos nas estruturas e novos problemas como o do transporte público. Precisamos, a olhos vistos, de um novo “salto para frente” desenvolvendo o arrojo dos grandes capitães e livrando-nos, no entanto, do truque recorrente da “fuga para frente” que traz em seu bojo, sempre, uma nova crise.

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